 Da
memória
O século XX foi verdadeiramente
rico em transformações rurais no nosso
território. Os usos do espaço rural
conheceram um percurso tão diverso, durante
esse período, como diversa é a sua componente
paisagística.
O inicio foi marcado pelo advento de sistemas
de rega tradicionais - noras – cuja
tipologia e quantidade indicam uma significativa capacidade
de produção em culturas “mimosas”
– hortícolas, vinha e frutas –
manifestamente adequadas para alimentarem um mundo
rural pujante.
Um período intermédio dedicado à
“campanha do trigo”,
onde as terras foram ocupadas, na sua quase totalidade,
pelos cereais de sequeiro. A total ausência
de mecanização era compensada por uma
mão-de-obra com uma denominação
tangente à escravidão, e, por uma via
de trocas – caminho de ferro – a funcionar
em pleno. Foi a época de ouro.
Os anos 60/70 assinalam o falhanço da “campanha
do trigo” e a precipitação dos
portugueses na Europa em reconstrução
acelerada, deixando os campos para serem cuidados
por “viuvas de vivos”, crianças
e velhos. Foi o inicio de um processo de desertificação
do mundo rural que ainda hoje não encontrou
a sua extremidade.
O advento do plano de rega do Alentejo, a construção
do perímetro de rega do mira e do seu impressionante
reservatório - Barragem de Stª Clara a
Velha – deslocaram de uma forma definitiva os
processos de desenvolvimento para o litoral
do território. Até este momento nada
do que foi dito tinha que ver com um Litoral
onde, em grande medida, as pequenas aldeias piscatórias
eram a sua expressão demográfica e económica.
O advento da entrada de Portugal na Comunidade
Europeia e os grandes projectos agrícolas
foram demonstrativos e anunciadores de um novo arquétipo
de uso do espaço, e, da rentabilidade agrícola.
Produtividade e exportação foram termos
novos introduzidos na agricultura emergente do litoral
regado.
Do
que temos
O interior do território foi, em grande medida,
reflorestado, no início
com espécies exóticas como o eucalipto,
actualmente, a recuperação do sobreiro,
em consociação com o medronheiro,
é uma realidade.
A agricultura praticada nesse interior é
caracteristicamente familiar e tradicional,
onde as práticas culturais e maneios pecuários
ainda obedecem a saberes próprios de comunidades
de subsistência. A preocupação
de comercialização é de tal
forma marginal que esta pode ser considerada uma
agricultura “clandestina”, sem qualquer
tipo de produto ou produção adequadas
às actuais normas de comercialização.
O Litoral identifica-se, hoje,
com uma agricultura intensiva,
exportadora e com enormes necessidades em inputs
técnicos e tecnológicos. As raças
e variedades exóticas são
praticamente monopolizadoras do universo das explorações
agrícolas. Os seus maneios e práticas
agrícolas associadas, vieram criar conflitos
entre as suas necessidades/potencialidades e a preservação
do meio.
Do
que poderemos ter
A valorização económica de
uma agricultura tradicional, praticada
no interior do território,
construindo a organização da oferta
em torno de produtos e práticas agrícolas
de enorme qualidade e com enorme
potencial diferenciador.
A construção de circuitos de comercialização
- onde o consumidor deve assumir, apartir de um
quadro de proximidade, um novo papel de extensionista
-, serão, num futuro próximo, o suporte
de uma valorização, que, só
a jusante deve compreender a atribuição
de uma imagem classificadora como é a de
“Agricultura Biológica”.
Este espaço territorial e os seus usos têm
um potencial enorme em termos de externalidades
positivas da agricultura. A sua diversidade e riqueza
biológica, paisagística e cultural
são janelas escancaradas para um desenvolvimento
rural endógeno dificilmente igualável.
A valorização ambiental da
agricultura intensiva praticada no litoral
do território é o caminho que tem
que ser percorrido. Isto porque as exigências
de mercado - principalmente em produções
como as praticados nesse espaço territorial
-, serão, cada vez mais no sentido da qualidade
e do cumprimento de normas associadas à definição
de “segurança alimentar”.
Esta presunção coloca a agricultura
intensiva numa rota de convergência
com a tradicional, onde, o ambiente
e a sua preservação, é –
tem que ser – o elemento agregador.
È certo que a agricultura vem, progressivamente,
perdendo peso em termos demográficos, contribui
menos para a fixação das populações,
e, em termos económicos é, por muitos,
considerada uma actividade dependente, como tal
absorvente e não contributiva para a riqueza
regional e nacional. No entanto, para um correcto
ordenamento dos espaços rurais – 80%
do território nacional é rural –
a agricultura é essencial. Assim, para além
do seu aspecto produtivo, importa hoje avaliar o
verdadeiro significado do papel da agricultura,
do ponto de vista da salvaguarda do património
biológico, edificado e cultural. Afinal,
quanto vale a nossa identidade e a nossa memória,
e, que mercado temos para a valorizar?!
Com
a colaboração de Helder
Guerreiro, TAIPA |