 O
litoral sudoeste entre a foz do rio Mira e a ponta
de Sagres caracterizou-se historicamente pela escassez
da ocupação humana, não
obstante ter sido percorrido por populações
desde a Pré-história,
que retirariam do mar a sua subsistência. São
conhecidos os utensílios líticos do
chamado “mirense”, muito abundantes nesta
costa, que datam do Epipaleolítico e Mesolítico
(com cerca de 10 mil anos), entre outros vestígios.
Rochosa
e escarpada, carente de bons portos e de terrenos
agrícolas, esta faixa costeira não
deu origem a qualquer povoação de
dimensão significativa. A única
vila costeira, Vila Nova de Milfontes,
nasceu sob o impulso colonizador da Coroa em finais
do século XV e teve crescimento lento e atribulado.
Na extremidade sul, por decisão do Infante
D. Henrique, foi fundada a Vila do Infante, sobre
os restos de antiga povoação, projecto
praticamente falhado.
O
padrão de povoamento do Sudoeste
caracterizou-se pelo recuo das principais povoações
relativamente ao litoral, com que frequentemente
se ligavam por um canal fluvial. Instalando-se no
final dos troços navegáveis dos rios,
em lugar mais central e afastadas dos inconvenientes
e dos perigos da proximidade do mar – debilidade
agrícola e pirataria marítima –
controlavam economicamente um território
mais ou menos vasto. Neste litoral, são exemplos
desse modelo de povoamento as vilas de Odemira e
de Aljezur, e de certo modo Odeceixe. Hoje, esses
portos fluvio-marítimos estão inactivos,
e apenas o rio Mira até Odemira é
navegável por pequenas embarcações.
Em Aljezur, a navegação comercial
praticamente desapareceu na segunda metade do século
XVII, devido ao intenso assoreamento então
verificado.
A
reconquista cristã do território verificou-se
aqui tardiamente, em meados do século XIII.
A toponímia ainda recorda a época
anterior: o primeiro elemento dos nomes Odemira
e Odeceixe (ode) significa “rio” em
árabe, assim como da mesma origem é
o nome Aljezur, que significa “península”
ou “ilha”. Zona, sem dúvida periférica
do mundo islâmico, o cristianismo
não desapareceu daqui nessa época.
Um santuário mariano em Odemira, identificado
pouco depois da reconquista, parece ter raízes
anteriores. E, na zona de Sagres, a famosa igreja
do Corvo, local de peregrinação dos
cristãos, só destruída no período
almorávida, bem como, mais tarde, o episódio
do resgate das relíquias de S. Vicente por
D. Afonso Henriques, ilustram essa realidade. Sagres
– o Promontorium Sacrum dos Antigos
– era aliás um lugar de antiga e intensa
sacralidade, como também mostra o grande
número de menires neolíticos existentes.
Sacralidade que bem ainda é revelada pela
tradição dos banhos santos pelo S.
João e pelas numerosas lendas ligadas à
água, que encontramos em toda a região.
Religião
e guerra andaram associadas na época
da reconquista. Aos monges-guerreiros cristãos,
como os da Ordem de Santiago da Espada que contribuíram
decisivamente para a ocupação do Sul,
correspondia certa organização castrense
do Islão como demonstra o Ribat (convento
fortificado) da Arrifana.
Mar
piscoso, desde cedo os seus recursos atraíram
pescadores. A pesca empresarial
desenvolveu-se, especialmente na parte algarvia
do Sudoeste, através de armações
de pesca, chamadas almadravas, colocadas em sítios
propícios da costa, como em Arrifana e na
zona de S. Vicente/Sagres. Nesses locais foram,
ao longo dos séculos XVI a XVIII, erguidas
fortificações para proteger pescadores
e artes da acção dos piratas magrebinos.
Baías – Baleeira, Arrifana –
e estuários – Mira, especialmente –
deram origem a portos de pesca. Também pequenos
abrigos – Canal, Lapa de Pombas, Entrada da
Barca ou Sardão e Azenha do Mar, todos no
concelho de Odemira – tiveram mais ou menos
antiga utilização.
Esta
faixa costeira tem contígua uma zona
de características serranas, onde
se distinguem algumas povoações, para
além das já citadas. Santa Clara-a-Velha,
por exemplo, próximo do rio Mira e de uma
grande barragem destinada a irrigação,
no local onde passava uma antiga estrada que ligava
ao Algarve. Mas é Monchique, na serra do
mesmo nome, que mais atraiu visitantes, quer pela
sua beleza natural (a “Sintra do Algarve”),
quer pelas suas termas, afamadas provavelmente desde
a Antiguidade.
Com
a colaboração do historiador Dr.
António Martins Quaresma |